Já da morte o palor me cobre o rosto,
Nos lábios meus o alento desfalece,
Surda agonia o coração fenece,
E devora meu ser mortal desgosto!
Do leito embalde no macio encosto
Tento o sono reter!… já esmorece
O corpo exausto que o repouso esquece…
Eis o estado em que a mágoa me tem posto!
O adeus, o teu adeus, minha saudade,
Fazem que insano do viver me prive
E tenha os olhos meus na escuridade.
Dá-me a esperança com que o ser mantive!
Volve ao amante os olhos por piedade,
Olhos por quem viveu quem já não vive!
AZEVEDO, A. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2000.
O núcleo temático do soneto citado é típico da segunda geração romântica, porém configura um lirismo que o projeta para além desse momento específico. O fundamento desse lirismo é
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A
A angústia alimentada pela constatação da irreversibilidade da morte.
B
A melancolia que frustra a possibilidade de reação diante da perda.
C
O descontrole das emoções provocado pela autopiedade.
D
O desejo de morrer como alívio para a desilusão amorosa.
E
O gosto pela escuridão como solução para o sofrimento.
O ENEM quer ver se você identifica o estado afetivo que sustenta o poema: prostração diante da perda, não desejo de morrer nem angústia metafísica.
🪤
A armadilha
Como o soneto fala de morte, quem lê pelo clichê do "mal do século" marca D (desejo de morrer como alívio) ou A (angústia da morte); mas a morte aqui é efeito da tristeza, e o eu lírico ainda pede esperança.
Quem cai nela marca D, A.
Já da morte o palor me cobre o rosto,
Nos lábios meus o alento desfalece,
Surda agonia o coração fenece,
E devora meu ser mortal desgosto!
Do leito embalde no macio encosto
Tento o sono reter!… já esmorece2O corpo exausto que o repouso esquece…3
Eis o estado em que a mágoa me tem posto!
O adeus, o teu adeus, minha saudade,1
Fazem que insano do viver me prive
E tenha os olhos meus na escuridade.4Dá-me a esperança com que o ser mantive!5Volve ao amante os olhos por piedade,6
Olhos por quem viveu quem já não vive!
1“O adeus, o teu adeus, minha saudade,” — Causa: perda amorosa (separação), não a morte de alguém.
2“Tento o sono reter!… já esmorece” — Tentativa de reação que falha: o sono não vem.
3“O corpo exausto que o repouso esquece…” — Prostração física: o corpo não reage.
4“E tenha os olhos meus na escuridade.” — A escuridão é efeito da dor, não solução buscada.
5“Dá-me a esperança com que o ser mantive!” — Ele pede esperança: não deseja a morte como alívio.
6“Volve ao amante os olhos por piedade,” — Única ação possível: suplicar. A reação depende da amada.
Veja a sequência: perda, tentativas frustradas de reagir e súplica final.
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