Um criado trouxe o café. Rubião pegou na xícara e, enquanto lhe deitava açúcar, ia disfarçadamente mirando a bandeja, que era de prata lavrada. Prata, ouro, eram os metais que amava de coração; não gostava de bronze, mas o amigo Palha disse-lhe que era matéria de preço, e assim se explica este par de figuras que aqui está na sala: um Mefistófeles e um Fausto. Tivesse, porém, de escolher, escolheria a bandeja, – primor de argentaria, execução fina e acabada. O criado esperava teso e sério. Era espanhol; e não foi sem resistência que Rubião o aceitou das mãos de Cristiano; por mais que lhe dissesse que estava acostumado aos seus crioulos de Minas, e não queria línguas estrangeiras em casa, o amigo Palha insistiu, demonstrando-lhe a necessidade de ter criados brancos. Rubião cedeu com pena. O seu bom pajem, que ele queria pôr na sala, como um pedaço da província, nem o pôde deixar na cozinha, onde reinava um francês, Jean; foi degradado a outros serviços.
ASSIS, M. Quincas Borba. In: Obra completa. V.1. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1993 (fragmento).
Quincas Borba situa-se entre as obras-primas do autor e da literatura brasileira. No fragmento apresentado, a peculiaridade do texto que garante a universalização de sua abordagem reside
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A
No conflito entre o passado pobre e o presente rico, que simboliza o triunfo da aparência sobre a essência.
B
No sentimento de nostalgia do passado devido à substituição da mão de obra escrava pela dos imigrantes.
C
Na referência a Fausto e Mefistófeles, que representam o desejo de eternização de Rubião.
D
Na admiração dos metais por parte de Rubião, que metaforicamente representam a durabilidade dos bens produzidos pelo trabalho.
E
Na resistência de Rubião aos criados estrangeiros, que reproduz o sentimento de xenofobia.
O ENEM quer ver se você enxerga, por trás dos objetos da sala de Rubião, o tema universal de Machado: parecer em vez de ser.
🪤
A armadilha
O trecho fala de escravos, imigrantes e criados estrangeiros, e isso puxa para uma leitura histórica ou de xenofobia (B e E). Mas o comando pede o que torna o texto universal.
Quem cai nela marca B, E.
Prata, ouro, eram os metais que amava de coração; não gostava de bronze, mas o amigo Palha disse-lhe que era matéria de preço1, e assim se explica este par de figuras que esta aqui na sala: um Mefistófeles e um Fausto. Tivesse, porém, de escolher, escolheria a bandeja2 – primor de argentaria, execução fina e acabada. O criado esperava teso e sério. Era espanhol; e não foi sem resistência que Rubião o aceitou das mãos de Cristiano; por mais que lhe dissesse que estava acostumado aos seus crioulos de Minas, e não queria línguas estrangeiras em casa, o amigo Palha insistiu, demonstrando-lhe a necessidade de ter criados brancos3. Rubião cedeu com pena4. O seu bom pajem, que ele queria pôr na sala, como um pedaço da província, nem pôde deixar na cozinha, onde reinava um francês, Jean; foi degradado a outros serviços5.
1“mas o amigo Palha disse-lhe que era matéria de preço” — Compra pelo valor social, não pelo gosto.
2“Tivesse, porém, de escolher, escolheria a bandeja” — O gosto real dele é outro.
3“necessidade de ter criados brancos” — Exigência de status da elite, vinda de Palha.
4“Rubião cedeu com pena” — Ele abre mão do que quer para parecer.
5“foi degradado a outros serviços” — O que é dele some da vista das visitas.
Em cada trecho marcado, o gosto de Rubião perde para a imagem de homem rico.
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