DONA COTINHA – É claro! Só gosta de solidão quem nasceu pra ser solitário. Só o solitário gosta de solidão. Quem vive só e não gosta da solidão não é um solitário, é só um desacompanhado. (A reflexão escorrega lá pro fundo da alma.) Solidão é vocação, besta de quem pensa que é sina. Por isso, tem de ser valorizada. E não é qualquer um que pode ser solitário, não. Ah, mas não é mesmo! É preciso ter competência pra isso. (De súbito, pedagógica, volta-se para o homem.) É como poesia, sabe, moço? Tem de ser recitada em voz alta, que é pra gente sentir o gosto. (FAZ UMA PAUSA.) Você gosta de poesia? (O HOMEM TORNA A SE DEBATER. A VELHA INTERROMPE O DISCURSO E VOLTA A LHE DAR AS COSTAS, COMO SEMPRE, IMPASSÍVEL. O HOMEM, MAIS UMA VEZ, CANSADO, DESISTE.) Bem, como eu ia dizendo, pra viver bem com a solidão temos de ser proprietários dela e não inquilinos, me entende? Quem é inquilino da solidão não passa de um abandonado. É isso aí.
ZORZETTI, H. Lições de motim. Goiânia: Kelps, 2010 (adaptado).
Nesse trecho, o que caracteriza Lições de motim como texto teatral?
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A
O tom melancólico presente na cena.
B
As perguntas retóricas da personagem.
C
A interferência do narrador no desfecho da cena.
D
O uso de rubricas para construir a ação dramática.
E
As analogias sobre a solidão feitas pela personagem.
O ENEM quer ver se você separa marca de gênero (estrutura do texto) de marca de estilo (tom, figuras, perguntas).
🪤
A armadilha
Os parênteses parecem a voz de alguém contando a cena, e isso leva à C. Mas teatro não tem narrador: esses parênteses são rubricas, indicações do autor para a encenação. Tom, perguntas e analogias existem em qualquer gênero.
Quem cai nela marca C.
É claro! Só gosta de solidão quem nasceu pra ser solitário. Só o solitário gosta de solidão. Quem vive só e não gosta da solidão não é um solitário, é só um desacompanhado. (A reflexão escorrega lá pro fundo da alma.)1 Solidão é vocação, besta de quem pensa que é sina. Por isso, tem de ser valorizada. E não é qualquer um que pode ser solitário, não. Ah, mas não é mesmo! É preciso ter competência pra isso. (De súbito, pedagógica, volta-se para o homem.)2 É como poesia, sabe, moço? Tem de ser recitada em voz alta, que é pra gente sentir o gosto. (FAZ UMA PAUSA.)3 Você gosta de poesia? (O HOMEM TORNA A SE DEBATER.4 A VELHA INTERROMPE O DISCURSO E VOLTA A LHE DAR AS COSTAS, COMO SEMPRE, IMPASSÍVEL.5 O HOMEM, MAIS UMA VEZ, CANSADO, DESISTE.) Bem, como eu ia dizendo, pra viver bem com a solidão temos de ser proprietários dela e não inquilinos, me entende? Quem é inquilino da solidão não passa de um abandonado. É isso aí.
1“(A reflexão escorrega lá pro fundo da alma.)” — Rubrica: indica a interpretação da atriz.
2“(De súbito, pedagógica, volta-se para o homem.)” — Rubrica: tom e movimento em cena.
3“(FAZ UMA PAUSA.)” — Rubrica: marca o tempo da fala.
4“(O HOMEM TORNA A SE DEBATER.” — Rubrica: ação de outra personagem, sem narrador.
5“VOLTA A LHE DAR AS COSTAS, COMO SEMPRE, IMPASSÍVEL.” — Rubrica: gesto que faz a cena avançar.
Tudo entre parênteses é rubrica: indicação de cena, não narração.
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