É preciso não beber mais. Não é preciso sentir vontade de beber e não beber: é preciso não sentir vontade de beber. É preciso não dar de comer aos urubus. É preciso fechar para balanço e reabrir. É preciso não dar de comer aos urubus. Nem esperanças aos urubus. É preciso sacudir a poeira. É preciso poder beber sem se oferecer em holocausto. É preciso. É preciso não morrer por enquanto. É preciso sobreviver para verificar. Não pensar mais na solidão de Rogério, e deixá-lo. É preciso não dar de comer aos urubus. É preciso enquanto é tempo não morrer na via pública.
TORQUATO NETO. In: MENDONÇA, J. (Org.) Poesia (im)popular brasileira.
São Bernardo do Campo: Lamparina Luminosa, 2012.
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A
Configura o estreitamento da linguagem poética.
B
Reflete as lacunas da lucidez em desconstrução.
C
Projeta a persistência das emoções reprimidas.
D
Repercute a consciência da agonia antecipada.
E
Revela a fragmentação das relações humanas.
O ENEM quer ver se você lê o efeito da repetição: o "É preciso" martelado revela alguém se dando ordens para não morrer.
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A armadilha
Quem vê "é preciso não sentir vontade de beber" pensa em desejo reprimido e marca a C; quem estranha o jeito de diário marca a B. Mas o eu lírico é lúcido: sabe o que o ameaça e anota ordens para sobreviver.
Quem cai nela marca C, B.
É preciso não beber mais. Não é preciso sentir vontade de beber e não beber: é preciso não sentir vontade de beber1. É preciso não dar de comer aos urubus.2 É preciso fechar para balanço e reabrir. É preciso não dar de comer aos urubus. Nem esperanças aos urubus. É preciso sacudir a poeira. É preciso poder beber sem se oferecer em holocausto.3 É preciso. É preciso não morrer por enquanto.4É preciso sobreviver para verificar.5 Não pensar mais na solidão de Rogério, e deixá-lo. É preciso não dar de comer aos urubus. É preciso enquanto é tempo não morrer na via pública.6
1“é preciso não sentir vontade de beber” — O vício nomeado com lucidez (não reprimido).
2“É preciso não dar de comer aos urubus.” — Urubus esperam carniça: não virar cadáver. A frase volta três vezes.
3“É preciso poder beber sem se oferecer em holocausto.” — Holocausto = sacrifício: a bebida como morte.
4“É preciso não morrer por enquanto.” — A morte já é tratada como algo próximo.
5“É preciso sobreviver para verificar.” — Viver vira tarefa a cumprir.
6“É preciso enquanto é tempo não morrer na via pública.” — Fecho: o tempo está acabando.
A anáfora "É preciso" e as imagens de morte andam juntas do início ao fim.
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