O instrumento do “crime” que se arrola
Nesse processo de contravenção
Não é faca, revólver ou pistola,
Simplesmente, doutor, é um violão.
Será crime, afinal, será pecado,
Será delito de tão vis horrores,
Perambular na rua um desgraçado
Derramando nas praças suas dores?
Mande, pois, libertá-lo da agonia
(a consciência assim nos insinua)
Não sufoque o cantar que vem da rua,
Que vem da noite para saudar o dia.
É o apelo que aqui lhe dirigimos,
Na certeza do seu acolhimento
Juntada desta aos autos nós pedimos
E pedimos, enfim, deferimento.
Essa petição de habeas corpus, ao transgredir o rigor da linguagem jurídica,
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A
Permite que a narrativa seja objetiva e repleta de sentidos denotativos.
B
Mostra que o cordel explora termos próprios da esfera do direito.
C
Demonstra que o jogo de linguagem proposto atenua a gravidade do delito.
D
Exemplifica como o texto em forma de cordel compromete a solicitação pretendida.
E
Esclarece que os termos “crime” e “processo de contravenção” são sinônimos.
O ENEM quer ver se você percebe o efeito de escrever um pedido jurídico em versos: a forma poética muda o peso do que está sendo julgado.
🪤
A armadilha
Como o texto usa "processo", "contravenção", "autos" e "deferimento", parece que o foco é o vocabulário jurídico (B) ou que a forma atrapalha o pedido (D). O que importa é o efeito: o jogo poético faz o "crime" parecer pequeno.
Quem cai nela marca B, D.
O instrumento do “crime” que se arrola1 / Nesse processo de contravenção / Não é faca, revólver ou pistola,2 / Simplesmente, doutor, é um violão.3 / Será crime, afinal, será pecado, / Será delito de tão vis horrores,4 / Perambular na rua um desgraçado / Derramando nas praças suas dores? / Mande, pois, libertá-lo da agonia / (a consciência assim nos insinua) / Não sufoque o cantar que vem da rua,5 / Que vem da noite para saudar o dia. / É o apelo que aqui lhe dirigimos, / Na certeza do seu acolhimento / Juntada desta aos autos nós pedimos / E pedimos, enfim, deferimento6
1“O instrumento do “crime” que se arrola” — Aspas: o autor contesta que aquilo seja crime.
2“Não é faca, revólver ou pistola,” — Contraste com armas de verdade.
3“Simplesmente, doutor, é um violão.” — "Simplesmente" diminui a acusação.
4“Será delito de tão vis horrores,” — Pergunta retórica: a resposta esperada é não.
5“Não sufoque o cantar que vem da rua,” — Apelo lírico: o réu é um cantor, não um criminoso.
6“E pedimos, enfim, deferimento” — O pedido formal continua de pé: derruba a D.
Cada destaque é um recurso que torna o "crime" menor sem abandonar a petição.
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