Se os tubarões fossem homens, eles seriam mais gentis com os peixes pequenos?
Certamente, se os tubarões fossem homens, fariam construir resistentes gaiolas no mar para os peixes pequenos, com todo o tipo de alimento, tanto animal como vegetal. Cuidariam para que as gaiolas tivessem sempre água fresca e adotariam todas as providências sanitárias.
Naturalmente haveria também escolas nas gaiolas. Nas aulas, os peixinhos aprenderiam como nadar para a goela dos tubarões. Eles aprenderiam, por exemplo, a usar a geografia para localizar os grandes tubarões deitados preguiçosamente por aí. A aula principal seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos. A eles seria ensinado que o ato mais grandioso e mais sublime é o sacrifício alegre de um peixinho e que todos deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando estes dissessem que cuidavam de sua felicidade futura. Os peixinhos saberiam que este futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência.
Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos seria condecorado com uma pequena Ordem das Algas e receberia o título de herói.
BRECHT, B. Histórias do Sr. Keuner. São Paulo: Ed. 34, 2006 (adaptado)
Como produção humana, a literatura veicula valores que nem sempre estão representados diretamente no texto, mas são transfigurados pela linguagem literária e podem até entrar em contradição com as convenções sociais e revelar o quanto a sociedade perverteu os valores humanos que ela própria criou. É o que ocorre na narrativa do dramaturgo alemão Bertolt Brecht mostrada. Por meio da hipótese apresentada, o autor
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A
Demonstra o quanto a literatura pode ser alienadora ao retratar, de modo positivo, as relações de opressão existentes na sociedade.
B
Revela a ação predatória do homem no mar, questionando a utilização dos recursos naturais pelo homem ocidental.
C
Defende que a força colonizadora e civilizatória do homem ocidental valorizou a organização das sociedades africanas e asiáticas, elevando-as ao modo de organização cultural e social da sociedade moderna.
D
Questiona o modo de organização das sociedades ocidentais capitalistas, que se desenvolveram fundamentadas nas relações de opressão em que os mais fortes exploram os mais fracos.
E
Evidencia a dinâmica social do trabalho coletivo em que os mais fortes colaboram com os mais fracos, de modo a guiá-los na realização de tarefas.
O ENEM quer ver se você lê a ironia: o texto descreve a opressão como cuidado justamente para denunciá-la.
🪤
A armadilha
Lido ao pé da letra, o texto parece elogiar os tubarões gentis. Quem não percebe a ironia marca a A (literatura que retrata a opressão de modo positivo) ou a E (fortes que colaboram com fracos).
Quem cai nela marca A, E.
Certamente, se os tubarões fossem homens, fariam construir resistentes gaiolas no mar para os peixes pequenos1, com todo o tipo de alimento, tanto animal como vegetal. Cuidariam para que as gaiolas tivessem sempre água fresca e adotariam todas as providências sanitárias.
Naturalmente haveria também escolas nas gaiolas. Nas aulas, os peixinhos aprenderiam como nadar para a goela dos tubarões2. Eles aprenderiam, por exemplo, a usar a geografia para localizar os grandes tubarões deitados preguiçosamente por aí. A aula principal seria, naturalmente, a formação moral dos peixinhos. A eles seria ensinado que o ato mais grandioso e mais sublime é o sacrifício alegre de um peixinho3 e que todos deveriam acreditar nos tubarões, sobretudo quando estes dissessem que cuidavam de sua felicidade futura. Os peixinhos saberiam que este futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência4.
Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos5 seria condecorado com uma pequena Ordem das Algas e receberia o título de herói.
1“fariam construir resistentes gaiolas no mar para os peixes pequenos” — O "cuidado" começa com uma prisão.
2“os peixinhos aprenderiam como nadar para a goela dos tubarões” — A escola forma vítimas obedientes.
3“o ato mais grandioso e mais sublime é o sacrifício alegre de um peixinho” — A moral ensina o explorado a aceitar ser devorado.
4“este futuro só estaria garantido se aprendessem a obediência” — Obediência como virtude: controle disfarçado.
5“Cada peixinho que na guerra matasse alguns peixinhos inimigos” — Fracos lutando contra fracos, premiados pelos fortes.
Cada instituição "gentil" dos tubarões serve para os peixinhos serem comidos: é ironia, não elogio.
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