Escrever só para me livrar
de escrever.
Escrever sem ver, com riscos
sentindo falta dos acompanhamentos
com as mesmas lesmas
e figuras sem força de expressão.
Mas tudo desafina:
o pensamento pesa
tanto quanto o corpo
enquanto corto os conectivos
corto as palavras rentes
com tesoura de jardim
cega e bruta
com facão de mato.
Mas a marca deste corte
tem que ficar
nas palavras que sobraram.
Qualquer coisa do que desapareceu
continuou nas margens, nos talos
no atalho aberto a talhe de foice
no caminho de rato
FREITAS FILHO, A. Máquina de escrever: poesia reunida e revista. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2003.
Nesse texto, a reflexão sobre o processo criativo aponta para uma concepção de atividade
poética que põe em evidência o(a)
👉 Tente resolver: clique na alternativa e confirme sua resposta.Rascunho de prova: ✕ elimina, ★ marca como provável (no celular, arraste a alternativa pro lado).
⏱00:00
A
Angustiante necessidade de produção, presente em “Escrever só para me livrar/ de escrever”.
B
Imprevisível percurso da composição, presente em “no atalho aberto a talhe de foice/ no caminho de rato”.
C
Agressivo trabalho de supressão, presente em “corto as palavras rentes/ com tesoura de jardim/ cega e bruta”.
D
Inevitável frustração diante do poema, presente em “Mas tudo desafina:/ o pensamento pesa/ tanto quanto o corpo”.
E
Conflituosa relação com a inspiração, presente em “sentindo falta dos acompanhamentos/ e figuras sem força de expressão”.
O ENEM quer ver se você acha o campo de imagens que domina o poema e escolhe o verso que de fato o comprova.
🪤
A armadilha
Todas as alternativas citam versos reais do poema. Quem só confere se o trecho existe cai na B (o atalho parece 'caminho imprevisível') ou na D (o 'desafina' parece frustração). O que decide é qual ideia o poema inteiro repete.
Quem cai nela marca B, D.
Escrever só para me livrar
de escrever.
Escrever sem ver, com riscos
sentindo falta dos acompanhamentos
com as mesmas lesmas
e figuras sem força de expressão.
Mas tudo desafina:
o pensamento pesa
tanto quanto o corpo
enquanto corto os conectivos1corto as palavras rentes2
com tesoura de jardim
cega e bruta3com facão de mato4.
Mas a marca deste corte5
tem que ficar
nas palavras que sobraram.
Qualquer coisa do que desapareceu
continuou nas margens, nos talos
no atalho aberto a talhe de foice6
no caminho de rato
1“corto os conectivos” — Primeiro corte: tira até as palavras que ligam as frases.
2“corto as palavras rentes” — Corte rente, na raiz: supressão radical.
3“cega e bruta” — Ferramenta sem fio: o corte é agressivo, não delicado.
4“com facão de mato” — Mais uma ferramenta bruta, agora de roçar mato.
5“Mas a marca deste corte” — O corte deve aparecer no poema: é método, não acidente.
6“no atalho aberto a talhe de foice” — Até o atalho foi aberto por corte, de foice.
Grifadas, as imagens de corte que atravessam o poema do meio ao fim.
A explicação completa tem 4 passos para você tentar antes de revelar, o motivo de cada alternativa estar certa ou errada.
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