Antigamente, os pirralhos dobravam a língua diante dos pais e se um se esquecia de arear os dentes antes de cair nos braços de Morfeu, era capaz de entrar no couro. Não devia também se esquecer de lavar os pés, sem tugir nem mugir. Nada de bater na cacunda do padrinho, nem de debicar os mais velhos, pois levava tunda. Ainda cedinho, aguava as plantas, ia ao corte e logo voltava aos penates. Não ficava mangando na rua, nem escapulia do mestre, mesmo que não entendesse patavina da instrução moral e cívica. O verdadeiro smart calçava botina de botões para comparecer todo liró ao copo d’água, se bem que no convescote apenas lambiscasse, para evitar flatos. Os bilontras é que eram um precipício, jogando com pau de dois bicos, pelo que carecia muita cautela e caldo de galinha. O melhor era pôr as barbas de molho diante de um treteiro de topete, depois de fintar e engambelar os coiós, e antes que se pusesse tudo em pratos limpos, ele abria o arco.
ANDRADE, C. D. Poesia e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1983 (fragmento).
TEXTO II
FIORIN, J. L. As línguas mudam. In: Revista Língua Portuguesa, n. 24, out. 2007 (adaptado).
Na leitura do fragmento do texto Antigamente constata-se, pelo emprego de palavras obsoletas, que itens lexicais outrora produtivos não mais o são no português brasileiro atual. Esse fenômeno revela que
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A
A língua portuguesa de antigamente carecia de termos para se referir a fatos e coisas do cotidiano.
B
O português brasileiro se constitui evitando a ampliação do léxico proveniente do português europeu.
C
A heterogeneidade do português leva a uma estabilidade do seu léxico no eixo temporal.
D
O português brasileiro apoia-se no léxico inglês para ser reconhecido como língua independente.
E
O léxico do português representa uma realidade linguística variável e diversificada.
O ENEM quer ver se você tira a conclusão certa do desuso de palavras: o léxico muda com o tempo, e isso é variação, não falta de vocabulário.
🪤
A armadilha
Quem lê “palavras que sumiram” como “palavras que faltavam” marca A; quem imagina uma língua parada no tempo marca C.
Quem cai nela marca A, C.
Antigamente1, os pirralhos dobravam a língua diante dos pais e se um se esquecia de arear os dentes antes de cair nos braços de Morfeu2, era capaz de entrar no couro. Não devia também se esquecer de lavar os pés, sem tugir nem mugir3. Nada de bater na cacunda do padrinho, nem de debicar os mais velhos, pois levava tunda4. Ainda cedinho, aguava as plantas, ia ao corte e logo voltava aos penates. Não ficava mangando na rua, nem escapulia do mestre, mesmo que não entendesse patavina da instrução moral e cívica. O verdadeiro smart5 calçava botina de botões para comparecer todo liró ao copo d’água, se bem que no convescote6 apenas lambiscasse, para evitar flatos.
1“Antigamente” — O título já marca o eixo do tempo: o texto fala de um uso que ficou para trás.
2“cair nos braços de Morfeu” — Expressão de época para “dormir”, segundo o glossário.
3“sem tugir nem mugir” — “Tugir” = murmurar: item lexical que deixou de ser produtivo.
4“pois levava tunda” — “Tunda” = surra. O leitor de hoje só entende com glossário.
5“smart” — Até o empréstimo do inglês era moda daquela época: o léxico sempre se renovou.
6“convescote” — “Piquenique”. A coisa continua existindo; a palavra é que mudou.
Cada palavra marcada era comum “antigamente” e hoje precisa de tradução: é o léxico variando no tempo.
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